A título de exemplo do trabalho com a teoria rizomática, passemos a abordar a leitura do poema “Desabar”, de Carlos Drummond de Andrade, pensando num público do 1º ano do ensino médio:
Desabava
Fugir não adianta
desabava por toda parte minas torres
edi
fícios
princípios
leis
muletas
desabando nem gritar
dava tempo soterrados
novos desabamentos insistiam
s o b r e p e i t o se m p ó
d e s a b a d e s a b a d e s a b a d a v a m
A s r u í n a s f o r m a r a m
outra cidade em ordem definitiva.
(Carlos Drummond de Andrade- 1972)
Para trabalhar com mais propriedade uma análise da leitura desse poema, sugerimos ao professor que aplique a metodologia proposta, resgatando-se informações acerca do momento histórico em que foi concebido ou publicado, e do comportamento do poeta em relação às questões sociais, sempre vistas numa ótica pessimista, quase dolorosa, da realidade. Sabe-se que as suas indagações filosóficas buscavam o sentido da vida em meio ao absurdo do mundo, ficando sem respostas, como um grito lançado ao ar. No poema, a indagação filosófica cede lugar à constatação de uma dura realidade, quase um registro fotográfico de um instantâneo de dor e desolação, diante daquilo que se transformou repentinamente e não há mais retorno. O professor deve propor aos alunos, por exemplo, a apreciação de uma reprodução do quadro Güernica (1937), de Pablo Picasso, antes que se aventurem a tecer analogias com os registros jornalísticos dos episódios de guerra e de terrorismo contemporâneos. O objetivo é de tentar, primeiramente, fixar o olhar para um momento histórico datado, que certamente chocou a humanidade, pois se sabe que a destruição de Güernica foi a primeira demonstração de bombardeamento em massa, técnica muito utilizada depois, na Segunda Guerra Mundial. Hoje, este procedimento chega a requintes de crueldade, quando a tecnologia é empregada para os chamados “ataques cirúrgicos”, que de resto são tão falhos quanto os convencionais, e não menos devastadores. Explorando um pouco mais o quadro de Picasso, o professor pode observar principalmente os instantâneos revelados pelos fragmentos de cenas, a força do olhar em cada rosto, o registro do horror mudo nas bocas entreabertas, os pedaços de corpos, enfim, um quadro que profetizou as novas formas de destruição, em nada devendo às cenas de sangue que hoje os homens-bomba provocam. Esta referência a um dos elementos históricos que poderiam fazer parte do horizonte de expectativas de Drummond, quando compôs o poema em 1972, tem a propriedade de convidar os alunos a mergulharem no possível imaginário do poeta, e no seu esforço por tentar demonstrar, na forma da expressão poética, como enxergava a destruição de um espaço, que no poema ganha ares de alegoria. Estabelecendo um contraponto com este universo, o professor pode solicitar aos alunos que tragam para a sala de aula recortes de jornais sobre os conflitos que ocorrem atualmente no mundo, cujo teor das reportagens e das fotos pode ser comentado brevemente. Assim, o professor busca conhecer o horizonte de expectativas dos alunos sobre o tema em pauta. Os elementos colhidos por ocasião do levantamento dos indícios nos níveis visual, fônico, lexical, morfossintático e semântico, por sua vez, certamente ajudam a compor uma apreciação mais profunda do poema, quando então, os alunos começam a estabelecer relações com a sua leitura de mundo, como nas seguintes suposições:
1) a associação com os conflitos atuais, como o desabamento de cada uma das torres gêmeas do Word Trader Center, em 2001 – marco indiscutível da selvageria a que o homem pode chegar – e que a própria palavra fragmentada “edi / fícios”, em desnível, acaba por materializar-se concretamente no poema. Não se pode ignorar que a palavra “torres” está no poema, quase que em tom profético;
2) o levantamento de expressões como “fugir não adianta”, “por toda a parte”, “nem gritar / dava tempo”, “soterrados”, “sobre peitos em pó”, além da força significativa de “desabadesabadesabadavam”, dando corpo ao estrondo final, revela termos que poderiam ilustrar as manchetes jornalísticas daqueles dias;
3) a associação que ainda pode ser feita a outros conflitos, como o da invasão americana no Iraque há alguns anos, ou os combates que se desenrolam no Oriente Médio;
4) a discussão que pode ser estabelecida em torno da questão ética, partindo da configuração dada, pelo poeta, às palavras “princípios” – aqui exprimindo o conjunto de referenciais filosóficos, morais e religiosos, que norteiam a conduta humana –, e “leis”, que deveriam garantir o regramento dessa conduta. Ambos os termos revelam, no texto drummondiano, que estão à mercê do caos, pois deixam de ter função numa sociedade massacrada, sob o jugo da guerra;
5) a observação mais acurada sobre a palavra única que compõe o oitavo verso – “muletas” – talvez a identificação do objeto que deveria sustentar um corpo já combalido, mas que não tem mais serventia em plena fuga, ou mais que isso, a concretização da idéia de que “princípios e leis”, no contexto da guerra, não passam de “muletas”, que pouco servem para sustentar a garantia de direitos humanos.
6) a discussão em torno dos versos conclusivos “As ruínas formaram / outra cidade em ordem definitiva.”, impressionantes pela força com que expressam o caos que resta após os “desabamentos”, uma desordem rearranjada em outra ordem, que passa a ser “definitiva”, porque irremediavelmente marcada pela dor, pela perda irreparável, pela inversão de valores até então consagrados, pelo absurdo dos desvios às normas que não mais existem.
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