O homem e a galinha, por Ruth Rocha

Era uma vez um homem que tinha uma galinha.
Era uma galinha como as outras.
Um dia a galinha botou um ovo de ouro.
O homem ficou contente. Chamou a mulher:
- Olha o ovo que a galinha botou.
A mulher ficou contente: – Vamos ficar ricos!
E a mulher começou a tratar bem da galinha.
Todos os dias a mulher dava mingau para a galinha.
Dava pão-de-ló, dava até sorvete.
E a galinha todos os dias botava um ovo de ouro.
Vai que o marido disse:
- Pra que este luxo todo com a galinha?
Nunca vi galinha comer pão-de-ló…
Muito menos sorvete! Vai que a mulher falou:
- É, mas esta é diferente. Ela bota ovos de ouro!
O marido não quis conversa:
- Acaba com isso, mulher. Galinha come é farelo.
Aí a mulher disse:
- E se ela não botar mais ovos de ouro?
- Bota sim! – o marido respondeu.
A mulher todos os dias dava farelo à galinha.
E a galinha botava um ovo de ouro.
Vai que o marido disse:
- Farelo está muito caro, mulher, um dinheirão!
A galinha pode muito bem comer milho.
- E se ela não botar mais ovos de ouro?
- Bota sim. – respondeu o marido.
Aí a mulher começou a dar milho pra galinha.
E todos os dias a galinha botava um ovo de ouro.
Vai que o marido disse:
- Pra que este luxo de dar milho pra galinha?
Ela que cate o de-comer no quintal!
- E se ela não botar mais ovos de ouro?
- Bota sim – o marido falou.
E a mulher soltou a galinha no quintal.
Ela catava sozinha a comida dela.
Todos os dias a galinha botava um ovo de ouro.
Um dia a galinha encontrou o portão aberto.
Foi embora e não voltou mais.
Dizem, eu não sei, que ela agora está numa boa casa onde tratam dela a pão-de-ló.
Ruth Rocha, Enquanto o mundo pega fogo,2. ed.
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.p.14-9.
Questões de análise semiótica
Questão 1
Todos os dias a galinha bota um ovo de ouro. Botar ovos é o seu trabalho. O ovo de ouro é o produto do seu trabalho. No entanto ele não pertence a galinha, mas ao dono, que, ao fim de um certo período, estará rico. Qual o tema que se pode extrair dessas figuras?
Questão 2
Em troca do ovo de ouro (produto de seu trabalho), a dona dá sucessivamente a galinha: mingau, pão-de-ló e sorvete, farelo, milho. No final, não lhe dá nada. A galinha tem de catar o de comer no quintal. O que significa as figuras mingau, pão-de-ló, etc., considerando que elas constituem o que se recebe para produzir ovos de ouro?
Questão 3
As figuras mingau, sorvete, etc., mostram que a retribuição à galinha é cada vez menor, enquanto o fruto de seu trabalho permanece constante (todos os dias bota um ovo de ouro). Como gasta cada vez menos com a galinha, o homem vai ficar mais rico. Qual o tema que aparece sob essas figuras?
Questão 4
A Galinha foi embora porque quase não lhe davam nada em troca do que produzia. Dizem que está numa casa onde a tratam a pão-de-ló. Essas figuras recobrem que sentido mais abstrato?
Questão 5
A mulher estava preocupada com o bem-estar da galinha quando a tratava com mingau, sorvete e pão-de-ló? Aponte no texto uma frase que justifica sua resposta.
Questão 6
Se compararmos este texto de Ruth Rocha às fábulas, poderemos transpor para as relações humanas. Que contextualização verifica-se em um terceiro nível de leitura?
Fonte: Free file sharin

Trabalhando com Webquest

Professores, achei muito ineressante esta webquest sobre o tema “chuva”, sendo retratada, em notícias,na música, na poesia, no cinema e com alguns questionamentos. Um trabalho para ser desenvolvido em equipes. Veja e comprove:

Site de Literatura

contosEncontrei um ótimo site  de Literatura ” Contos do Covil” ,  para ser utilizado nos laboratórios de informáticas das escolas,  pelos professores de Língua Portuguesa e Literaturas. Aqui neste espaço, você professor,  encontrará textos completos de autores renomados da literatura brasileira e universal.

QUE PROFESSOR DE PORTUGUÊS QUEREMOS FORMAR? Por Magda Soares

Resenha Crítica

“Em seu artigo, Magda Soares afirma que a disciplina “Língua Portuguesa” só passou a existir nos currículos escolares nas últimas décadas do século XIX, o processo de formação do professor para tal disciplina só teve início nos anos 30 do século XX”. Sabendo-se que o tempo passado desde a chegada, aqui, dos primeiros colonizadores europeus, pode-se tomar os cento e poucos anos da disciplina e os quase oitenta de preocupação com a formação dos professores como coisa recente. Porém, é importante avaliar que a Língua Materna teve funções políticas, econômicas e sociais, geralmente vinculadas a uma pedagogia com função discriminatória e elitista. Além disso, a formação da nação brasileira foi composta de múltiplas raças onde emergem, no nível popular, coloquial, práticas de língua que definem muitos aspectos da tradição que correm o risco de desaparecer sob os influxos da indústria cultural massiva. Em meados do século XVIII, o Marquês de Pombal torna obrigatório o ensino da Língua Portuguesa em Portugal e no Brasil. No entanto, Trata-se de um ensino moldado ao ensino do Latim como o aprendiam os poucos que podiam aprender. Foi assim que, quase um século após, em 1837, no “Colégio Pedro II, que foi o modelo para o ensino secundário em nosso país. Este tipo de ensino manteve esta característica até metade no século XX, quando houve nasce a democratização. Os resultados dessa improvisação estão destacados nos textos pela autora que afirma: “em virtude das camadas menos desfavorecidas de alunos irem para a escola e aumentar em demasia o número de escolas, ocorreu um recrutamento maior e menos seletivo dos professores”, também “as condições escolares e pedagógicas, as necessidades e exigências culturais outras. É nessa época que se intensifica o processo de depreciação da profissão docente: a necessidade de contratação de professores faz com que rebaixe o salário do magistério e piore as condições de trabalho.

Quais estratégias de facilitação de sua atividade docente os professores procuraram? Uma delas é transferir ao livro didático a tarefa de preparar aulas e exercícios. O rebaixamento salarial e a perda de prestígio da profissão docente, muda a clientela dos cursos de Letras, que começam a atrair para o magistério indivíduos oriundos de contextos pouco letrados. Claro que não só no curso de Letras, mas em toda rede de magistério. Tal achatamento da profissão e da escola como formadora de subjetividades está associada a uma sociedade iletrada, ainda aqui marcada pela aparência de um sistema antes do que um sistema de transformação social. Tratou-se sempre de uma cultura da reprodução e de uma pedagogia da transmissão

A partir de 1980 começaram a surgir teorias inicialmente, a Lingüística, mais tarde, a Sociolingüística, ainda mais recentemente, a Lingüística Aplicada, a Psicolingüística, a Lingüística Textual, a Pragmática a Análise do Discurso, só nos anos 90 essas ciências começam a chegar à escola, “aplicadas” ao ensino da língua materna. Além de três novas áreas de estudo introduzem a necessidade de orientar o ensino da língua também por perspectivas históricas, sociológicas e antropológicas: a História da Leitura e da Escrita, a Sociologia da Leitura e da Escrita, a Antropologia da Leitura e da Escrita, especializações da História, da Sociologia e da Antropologia, ao investigar e analisar, a primeira, as práticas históricas de leitura e escrita, a segunda, as práticas sociais de leitura e escrita, a terceira, os usos e funções da leitura e da escrita em diferentes grupos culturais.

Hoje o importante é responder a pergunta inicial da autora: acrescida de mais alguns questionamentos: Que grupos sociais estão hoje procurando a profissão de professores de Português? Que grupos sociais têm hoje acesso á escola fundamental e média, quem são esses para quem os professores que formamos ensinarão Português?

Magda Soares finaliza seu artigo comparando duas produções textuais:

Na primeira produção ela questiona que o texto do aluno obedece a uma estrutura formal direcionada pelo professor, mas ao mesmo tempo é um texto sem novidades, cheio de clichês em compensação o segundo texto e feito por um aluno que ela menciona ser do tipo que não presta atenção as aulas e acaba escrevendo um testemunho sem estruturação como a própria autora afirma: “O texto é marcado pela coloquialidade, como na topicalização: o cidadão… ele, que aparece mais de uma vez. O tom descontraído nem mesmo é prejudicado pelo uso do poder-se-ia, que não soou forçado”. Embora o texto apresente falhas na grafia tem muito mais substância.

Memórias Póstumas de Brás Cubas

memorias1

Introdução

Machado de Assis constitui, na galeria dos escritores, um dos melhores exemplos da alta expressão literária do Brasil. Intelectual arguto, sensível e crítico, apresentam em suas obras um olhar minucioso sobre o psicológico e o social do homem de sua época. Certos temas e motivos, idealizados na concepção romântica, foram desnudados e vergastados por Machado, que nunca dispensou a fina ironia para fazê-lo. Dentre os muitos temas trabalhados pelo escritor, pode-se destacar o da morte pela forma diferenciada como é tratado. Essa forma cria uma antítese em relação à maneira como o tema foi abordado no Romantismo, que se ocupou disso com uma pujança lírica, sôfrega, angustiada, religiosa e, deveras, sentimental. Machado de Assis revoluciona a concepção de romance no Brasil. São diversos os pontos que podem ser discutidos dentro dessa obra, muitos deles já feitos por críticos de renome. Tornam-se, porém, interessantes alguns olhares sobre a morte neste romance, uma vez que ela já se faz presente desde o título e a maneira como vem trabalhada desconstrói a imagem romântica

Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas, além de inaugurar o Realismo brasileiro, apresenta as mais radicais experimentações na prosa do país até então. Narrado por um defunto, de forma digressiva e agressiva, o romance apresenta a vida inútil e desperdiçada do anti-herói Brás Cubas. Utilizando recursos narrativos e gráficos inusitados, Machado surpreende a cada página com sua ironia cortante e, acima de tudo, com a inteligência que prende até o leitor mais desconfiado. Antecipando procedimentos modernistas e descobertas da psicanálise, esta obra ácida e irônica de Machado de Assis eleva a literatura brasileira a um patamar jamais antes atingido.

A obra de Machado de Assis pode ser dividida em dois momentos bem distintos: as obras da juventude, com forte influência do Romantismo e seu progressivo amadurecimento, até chegar ao Realismo de suas obras da maturidade. Entre estas, as mais destacadas e consideradas são Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899). Se os escritores românticos, José de Alencar à frente, conseguiram estabelecer o romance como um gênero literário de respeito no Brasil, foi Machado de Assis quem elevou a prosa brasileira ao nível das melhores escritas no mundo em sua época. Sua obra não almeja mais apenas divertir, moralizar ou afirmar valores nacionais, mas visa esmiuçar o espírito humano, refletindo sobre valores universais, sem jamais perder de vista a realidade brasileira.

O PRIMEIRO ROMANCE PSICOLÓGICO

Com Memórias Póstumas de Brás Cubas a literatura brasileira atingiu a sua maturidade. Marco inicial do Realismo, introduz o romance psicológico na Literatura brasileira. Nesta obra, Machado de Assis desloca o foco de interesse do romance. O seu enfoque central não é a vida social ou a descrição das paisagens, mas a forma como seus personagens vêem e sentem as circunstâncias em que vivem. Em vez de enfatizar os espaços externos, investe na caracterização interior dos personagens, com suas contradições e problemáticas existenciais.

Procedimentos de leitura – Sequência didática

O que o professor deve fazer antes da leitura do texto

Levantamento do conhecimento prévio sobre o assunto.

Expectativas em função do suporte.

Expectativas em função dos textos da capa, quarta-capa, orelha etc.

Expectativas em função da formatação do gênero (divisão em colunas, segmentação do texto…).

Expectativas em função do autor ou instituição responsável pela publicação.

Antecipação do tema ou idéia principal a partir dos elementos paratextuais, como título, subtítulos, epígrafes, prefácios, sumários.

Antecipação do tema ou idéia principal a partir do exame de imagens ou de saliências gráficas.

Explicitação das expectativas de leitura a partir da análise dos índices anteriores.

Definição dos objetivos da leitura.

Confirmação ou retificação das antecipações ou expectativas de sentido criadas antes ou durante a leitura.

Localização ou construção do tema ou da idéia principal.

Esclarecimento de palavras desconhecidas a partir de inferência ou consulta a dicionário.

Identificação de palavras-chave para a determinação dos conceitos veiculados.

Busca de informações complementares em textos de apoio subordinados ao texto principal ou por meio de consulta a enciclopédias, Internet e outras fontes.

Identificação das pistas lingüísticas responsáveis pela continuidade temática ou pela progressão temática.

Utilização das pistas lingüísticas para compreender a hierarquização das proposições, sintetizando o conteúdo do texto.

Construção do sentido global do texto.

Identificação das pistas lingüísticas responsáveis por introduzir no texto a posição do autor.

Identificação do leitor-virtual a partir das pistas lingüísticas.

Identificar referências a outros textos, buscando informações adicionais se necessário.

Durante a leitura , o professor assume o papel daquele que revela, nas entonações, os efeitos da pontuação, que explicita o costume de um bom leitor de questionar o texto, que instiga o grupo a estabelecer finalidades para a leitura, a se envolver com o enredo, a buscar indícios, a levantar hipóteses, a antecipar, a fazer inferências e a se posicionar diante das idéias do autor.

O que cabe ao professor realizar com sua turma depois da leitura de um texto?

A leitura de um texto provoca o desejo de compartilhar com outros leitores algumas das impressões que essa experiência tenha provocado. Por essa razão é que se pode dizer que a leitura de um texto convoca cada leitor a dizer sua palavra. Como as idéias que o texto apresenta se relacionam com as do leitor? Como as proposições sustentadas por um autor se relacionam com as de outro? Como o mesmo tema foi abordado em outra época?

Depois da leitura

Construção da síntese semântica do texto.

Troca de impressões a respeito dos textos lidos, fornecendo indicações para sustentação de sua leitura e acolhendo outras posições.

Utilização, em função da finalidade da leitura, do registro escrito para melhor compreensão.

Avaliação crítica do texto.

Fonte:

KLEIMAN, Angela B. Texto e Leitor. Campinas: Pontes e Editora da UNICAMP, 1989.

___________. Oficina de Leitura. Campinas: Pontes e Editora da UNICAMP, 1993.

SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

Os erros mais comuns em redações

__ Para “mim” fazer: o “mim” não faz, porque não pode ser sujeito.

__”Porisso”. Duas palavras, por isso, como de repente e a partir de.

__ “Há” cinco anos “atrás”: há e atrás indicam passado na frase. Dessa forma deve-se usar apenas “há cinco anos” ou “cinco anos atrás”.

__”Fazem” cinco anos. Fazer, quando exprime tempo, é impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15 dias.

__Venda “à” prazo: não se usa o acento grave antes de palavra masculina, a não ser que esteja subentendida à moda.

__ “Porque” você foi? Sempre que estiver clara ou implícita a palavra razão, use por   que separado: Por que (razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. /

Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava congestionado.

__Todos somos “cidadões”: o plural de cidadão é cidadãos.

__Entre “eu” e você: Depois da preposição, usa-se mim ou ti.

__Que “seje” eterno: o subjuntivo de ser e estar é seja e esteja.

__ Ela é “de” menor: neste caso o “de” não existe.

__Creio “de” que: não se usa a preposição “de” antes de qualquer “que”.

__Ela veio, “mais” você, não: usa-se neste caso o “mas”, conjunção, que indica restrição, ressalva.

__Vai assistir “o” jogo hoje. Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou)   à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

__Preferia ir “do que” ficar. Prefere-se sempre uma coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma norma: É preferível lutar a morrer sem glória.

__ Não sabiam “aonde” ele estava. O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

__Ela era “meia” louca. Meio, advérbio, não varia: meio louca, meio esperta, meio amiga.

__A questão não tem nada “haver” com você. A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

__Já “é” 8 horas. Horas e as demais palavras que definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não “são”) 1 hora, já é meio-dia, já é meia-noite.

__O fato passou “desapercebido”. Na verdade, o fato passou despercebido, não foi notado. Desapercebido significa desprevenido

__ Se eu “ver” você por aí… O certo é: Se eu vir, revir, previr.

__ Tinha “chego” atrasado. “Chego” não existe. O certo: Tinha chegado atrasado

__”Obrigado”, disse a moça. Obrigado concorda com a pessoa: “Obrigada”, disse a moça. / Obrigado pela atenção. / Muito obrigados por tudo

__ O peixe tem muito “espinho”. Peixe tem espinha. Veja outras confusões desse tipo: O “fuzil” (fusível) queimou. / Casa “germinada” (geminada), “ciclo” (círculo) vicioso, “cabeçário” (cabeçalho).

__Comprei “ele” para você. Eu, tu, ele, nós, vós e eles não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você. Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandou-me.

__Chegou “em” São Paulo. Verbos de movimento exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao cinema. / Levou os filhos ao circo.

__ O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa com vírgula o sujeito do   predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

__Falo alto porque você “houve” mal: neste caso o houve é pretérito do verbo haver (existência), ao se referir à audição usa-se “ouve”.

A Caverna de Platão

Sócrates - Agora imagina a maneira como segue o estado das nossas naturezas relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de perna e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as corrente os impedem de voltar à cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem
em silêncio.
Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates – Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco – Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates – E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco – Sem dúvida.
Sócrates -Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco – É bem possível.
Sócrates – E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco – Sim, por Zeus!
Sócrates – Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco – Assim terá de ser.
Sócrates – Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se,enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco – Muito mais verdadeiras.
Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco – Com toda a certeza.
Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco – Sem dúvida.
Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco -Necessariamente.
Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco – Sim, com certeza Sócrates.
Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco – Por certo que sim.
Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois se habituar à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco – Sem nenhuma dúvida.
Sócrates – Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco – Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

REFLEXÃO: 
Por meio desta parábola, relatada por Platão, podemos refletir um pouco acerca do que entendemos por verdade. Será que nossas verdades são as “sombras” que se encontram em nossa frente? Será que nossas verdades se resumem apenas ao que percebemos com nossos cinco sentidos? Quando acreditamos apenas no que conseguimos ver, ficamos dentro das muralhas de nossa existência, de nossos sentidos, percepções, conceitos e preconceitos. Precisamos tomar cuidado para não aniquilarmos prematuramente o que ainda não vemos. Devemos acreditar que Platão nos demonstra através desta alegoria  que podemos ter uma ótima oportunidade de ampliar nossos conhecimentos. Acreditar nas “sombras” é um péssimo hábito que, infelizmente, está muito presente também no mundo da ciência.  

Video apresentado no fantástico sobre a alegoria da caverna de Platão

 

O BURRINHO PEDRÊS, de Guimarães Rosa

Roteiro de análise da narrativa “O burrinho pedrês” de Guimarães Rosa

1. Elementos da narrativa

a) Enredo

– partes do enredo;

– conflitos(s): o principal e os secundários.

b) Personagens

– quanto à caracterização/composição:

· personagens planas: tipos/caricatura (há? Quem são?);

· personagens complexas: características físicas, psicológicas, sociais, ideológicas, morais;

Tenha em atenção, por exemplo:

Os ditos, aforismos e conselhos do Major Saulo.

A maneira como o Major gere a questão de Silvino e Badu.

Os vaqueiros relatam casos do seu mundo – faça o levantamento e analise as estórias contadas por Raymundão e João Manico.

– quanto à participação no enredo:

· protagonista: herói ou anti-herói;

· antagonista;

· personagens secundárias.

c) Tempo, espaço e características do ambiente:

– época em que se passa a história;

– duração da história;

– tempo cronológico;

– localização geográfica;

– aspectos psicológicos, morais, religiosos;

– aspectos sócio-econômicos e políticos.

d) Narrador:

– primeira ou terceira pessoa;

– participante ou não participante;

– ponto de vista (tome atenção se há marcas de linguagem reveladoras das atitudes subjectivas do narrador face ao que relata, como por exemplo, os modalizadores: pontuação e vocábulos que acarretam juízos de valor).

2. Estilo

a) Marcas de oralidade:

– queda de sons e fusão ou contração de palavras;

– uso de diminutivos;

– repetições sintáticas;

– frases inacabadas e hesitações;

– vocabulário pouco variado e repetitivo;

– vocabulário popular, familiar ou corrente, pouco cuidado;

– referências diretas – necessidade de gesto;

– …

b) vocabulário:

– gíria (por exemplo: as várias designações para gado equino e gado bovino);

– vocabulário erudito usado pelo narrador;

– neologismos;

– arcaísmos;

– aforismos (decifre os respectivos sentidos, atendendo ao seu contexto de produção):

· “quem é visto é lembrado”

· “quem vai na frente bebe água limpa”

· “cavalo manso de moça só se encosta em tamborete”

· “joá com flor formosa não garante terra boa”

· “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma!”

· “Suspiro de vaca não arranca estaca!”

· “Quem tem inimigo não dorme!”

· “Burro não amansa nunca de-todo, só se acostuma!…”

· “Quando corre, bate caixa, quando anda, amassa o chão!”

· “para bezerro mal desmamado, cauda de vaca é maminha”

· “Esta vida é engraçada… Galinha tem de muita cor, mas todo ovo é branco.”

· “Quem viaja por terras estranhas vê o que quer e não quer!”

· “É andando que cachorro acha osso.”

· “Todo o gosto é regra.”

c) O estilo narrativo de Guimarães Rosa é caracterizado, entre outros aspectos, pelo alto índice de musicalidade, pelo recurso a procedimentos rítmicos e rimáticos característicos da poesia. Proceda à escansão do seguinte parágrafo que pode ser dividido em 6 versos de 7 sílabas: “Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando… Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito… Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando…”

3. Tema – Assunto – Mensagem

250 anos de Goethe

 Aos meus queridos alunos dos 2os. anos do ensino médio, do Colégio Estadual Unidade Polo, de Jandaia do Sul , Paraná, dedico este post:

O romance mais famoso da literatura alemã, “Os sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe. Considerado o primeiro romance romântico da literatura e precursor das idéias ultra-românticas. É a história (contada em cartas) de uma paixão cujo limite é a própria morte. É a negação de um homem em relação à sociedade e ao mundo despido dos valores emocionais. Quando de seu lançamento em 1774, esta obra-prima gerou uma onda de suicídios entre os jovens que se identificavam com o destino trágico de Werther.

Ao escrever Os Sofrimentos do Jovem Werther, Goethe produziu uma obra de arte a que deu, como conteúdo, as suas próprias aflições e seus tormentos, os seus próprios estados de alma, procedendo como todo poeta lírico que, ao procurar aliviar o coração, exprime aquilo de que é afetado enquanto sujeito. Graças a isso, o que era interior imobilidade acha-se livre e transforma-se num objeto exterior de que a pessoa se libertou. Do mesmo modo as lágrimas servem de derivativo à dor do que, por assim dizer, se esvai através delas. Como ele mesmo o disse, Goethe escreveu o Werther para se libertar da angústia íntima, e conseguiu-o.

Em tais situações líricas, pode refletir-se, por um lado, um estado objetivo, uma atividade referenciada ao mundo exterior, e, por outro lado, um estado da alma que, desligando-se de tudo o que é exterior, regressa a si mesma e torna-se o ponto de partida de estados internos e de sentimentos profundos.

Citações ultra-românticas da obra:

·     “A vida humana não passa de um sonho.”

·     “Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo!”

·     “Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças?”

·     “Pobre homem insensato, que julgas todas as coisas pequenas, por que és, também, tão pequeno?” 

    “Adeus! Só vejo um fim a esses tormentos:o túmulo.”

·     Não há tesouro comparável à paz de espírito e a estar a gente satisfeito consigo próprio! Ali! meu caro amigo, se esta alegria não fosse tão fugaz quanto é bela e preciosa!”

·     “Queria que alguém ousasse repetir-me tudo isso para atravessar-lhe a minha espada de lado a lado, – porque só o sangue poderá acalmar-me. Oh! cem vezes já peguei do punhal para livrar meu coração do peso que o esmaga.

  “Tenho medo de mim mesmo!”

  “É preciso que um de nós três desapareça, e sou eu quem deve desaparecer.”

  “Deus sabe quantas são as ocasiões em que me deito na cama com o desejo, e às vezes a esperança, de não tornar a acordar. E de manhã abro os olhos, revejo o sol e me sinto miserável.”