O Alienista, de Machado de Assis

Este conto de Machado de Assis narra em terceira pessoa uma história da cidade de Itaguaí, onde o protagonista, Simão Bacamarte, debruça-se sobre os estudos da loucura humana. O psiquiatra vai observando ao longo do tempo e em toda Itaguaí o comportamento dos seus moradores, declarando-os um a um como dementes. Machado trata nesse conto da condição humana sob a ótica da loucura, refletindo o que seja a razão e a alienação humana. Em uma análise semiótica podemos definir a oposição semântica: Alienista X alienado ou Loucura X Sanidade. Observa-se a intenção em questionar os conceitos destas palavras. Seguindo essa linha de raciocínio notemos na esfericidade das personagens a ambigüidade humana, como negar a atual condição ou posição por uma questão de sobrevivência, assumindo posturas que lhes convém em dado momento. É o caso do boticário Crispim Soares que mesmo sendo íntimo de Simão Bacamarte resolve passar para o lado do barbeiro Porfírio, por medo de ser acusado de cúmplice do alienista. Assim o é também este barbeiro que estando legalmente à frente da vila adquire uma postura diferente da que o levou a tal posto. Sobre o conceito de loucura, em certa passagem do conto Simão nos confunde conjeturando que loucos seriam os equilibrados, e o desequilíbrio seria marca da sanidade humana. Há nessa inversão de conceitos uma crítica ao senso comum, que prega a aparente honestidade como marca de bom caráter. A descrença quanto à retidão humana -comum na obra realista de Machado- é o ponto de partida para o novo método de cura do alienista, provando a infalibilidade humana, pois “cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida, e o efeito era certo”.

 

ASSIS, Machado de. O Alienista. São Paulo: Martin Claret, 2003.

 

 

4 Respostas

  1. uns de seus melhores livros que já pude ler!!

  2. sou fã de vc

  3. muito muito bom…..parabéns
    ta super interessante o assunto

  4. RELEITURA DO LIVRO “O ALIENISTA”
    Por BENIGNO DIAS
    Tudo se passou nas minas da Chapada Diamantina, mais precisamente em Seixo, na segunda metade do século XIX. Ali havia um homem megalomaníaco (com mania de grandeza) Bugio Espingarda ou O Alheado, cuja esposa era a senhora Plutarca. Esta, tão vaidosa quanto o marido.
    À medida que o tempo passava, o senhor O Alheado ia revelando a sua obsessão descontrolada por metais preciosos, a famosa febre do ouro. Tamanha era a sua ambição por ouro, ao ponto de um dia estabelecer uma regra em sua casa:
    -Doravante, em nossos colóquios, vamos dar preferência a palavras cujo sufixo seja OURO. Por exemplo: em vez de pele, fala-se couro; no lugar de zebu, diz-se touro; para se designar amarelo, usa-se louro etc.
    Até a sua cadelinha ele a apelidou de QUE LATE, somente porque esta expressão soa quase igual à unidade que serve para medir uma porção de ouro, QUILATE, equivalendo à cerca de 200 miligramas.
    Autodidata, O Alheado dominava bem o tupi-guarani, grego, latim e francês. Certa ocasião, enquanto lia um livro de Contos de Reis, descobriu que em um tempo muito remoto existiu um rei grego, o qual tinha o poder de transformar em ouro tudo que por ele fosse tocado, tratava-se de Midas.
    Plutarca, Plutarca, eureca, eureca (achei, achei)!
    O que Alheado, o quê?!
    O santo do ouro, Midas! E é ele quem a partir de agora nós vamos adorar em família!
    Prontamente, Bugio Espingarda mandou esculpir uma estátua colossal de Midas e a pintou de amarelo.
    Numa dada oportunidade, durante a adoração a Midas, O Alheado teve a visão de uma mina de ouro muito abundante, lá na Chapada Diamantina, era Seixo, o cenário onde se deu este episódio.
    De imediato, Bugio Espingarda correu para a igreja, onde começou a fazer os sinos badalarem. Foi um instante, enquanto toda a comunidade seixense sentiu-se atraída para saber o porquê daquele chamamento. Sitiado pela multidão, O Alheado subiu na torre da igreja e anunciou em voz alta:

    -Atenção, mulheres desta vila, quero-lhes comunicar que, de hoje em diante, seus esposos terão garantido o ganha-pão: todos serão meus mineiros (garimpeiros)!
    Do meio daquele ror, levantou-se um grito:
    -Patrão, e quanto será uma diária?
    Respondeu O Alheado:
    -Um conto de réis!
    Ouvindo aquilo, alguns gaiatos gritaram em coro:
    -Conto de Réis ou Conto de Vigário?!
    -Conto de Réis ou Conto de Vigário?!
    -Conto de Réis ou Conto de Vigário?!
    De dentro da capela, o padre Agnélio ouvia tudo. Ofendido, o sacerdote excomungou os manifestantes e os proibiu de integrar à tropa de Bugio Espingarda.
    Mas, ao fim de tudo, a maioria acabou seguindo Bugio Espingarda rumo ao seu Eldorado. Somavam mais de 500 peões.
    Àquelas alturas, Dona Plutarca, como toda mulher presunçosa, já fazia planos:
    -Alheado, a primeira tonelada de ouro extraída será para resvestir as paredes da nossa moradia.
    Parafraseando o dito popular:
    -Calma mulher, calma! Devagar com o andor, que o Midas é de barro!
    Numa segunda-feira, Bugio Espingarda arrebanhou seus 500 homens e começaram a escavar em busca de uma ilusão. Na esperança de ficarem todos ricos, em um passe de mágica, o grupo trabalhava com bastante entusiasmo.
    Decorridos uns três meses, 1/5 da turma já havia morrido: de febre amarela, malária, soterramento etc. Donos de engenho e quitandeiros dos arredores estavam à beira da falência de tanto fornecerem suprimentos para os homens de Bugio Espingarda à base do fiado. Sem encontrarem o tão sonhado tesouro, a peonzada já começa a se inquietar. Um peão de apelido Vermelho mobilizou um grupelho de insatisfeitos e deu início à distribuição de panfletos, incitando os demais contra o patrão Bugio Espingarda. Ao se sentir ameaçado, Bugio telegrafou para o Ministério da Guerra, na capital da república, Rio de Janeiro. Eis o conteúdo do telegrama:
    Exmº Sr. Ministro da Guerra,
    Estamos diante de um caso de conspiração estrangeira. Compatrícios estão sendo usados. Requeiro o envio de tropas federais sem delonga. Seixo-BA, 15 de novembro de 1.889. O Alheado. PTSDS.
    Seguro de que a paz voltaria a reinar em breve com a presença das forças armadas, Bugio continuou tocando o trabalho com a turma que ainda acreditava no seu sonho de que ali era mesmo um tesouro inesgotável. Todavia, a comunicação com o Rio de Janeiro não foi estabelecida. Pois, nas caladas da noite, Vermelho e seus comparsas cortaram o cabo do telégrafo.
    Já esgotados todos os argumentos para conter a fúria dos insatisfeitos, Bugio Espingarda articulou um plano para dissuadi-los, com a ajuda do padre Agnélio:
    -Reverendo, preciso da vossa intercessão urgente. Quero que você convença esses revoltosos de que, se não acharam ouro até agora, é porque foram amaldiçoados por São Midas.
    Conforme foi tramado, o vigário partiu para o campo de lavra, onde reuniu os mineiros dizendo:
    -Meus irmãos, vocês que até agora não encontraram ouro, e por isso já querem desistir, é porque vocês foram amaldiçoados por São Midas. Entretanto, os outros que mesmo não tendo dado no ouro, mas, ainda assim, acham ânimo para continuar buscando, é por que São Midas tem uma surpresa para eles, a médio prazo.
    E assim continuaram os aventureiros a cavar: aqueles que outrora estavam revoltados, para se livrarem do rótulo de malditos, voltaram às boas com o patrão e se reintegraram à turma. Às 06:00, 12:00 e 18:00 horas iam reverenciar São Midas, pedindo ao Santo que lhes revelasse o ouro.
    Em um determinado dia, quando o ânimo da equipe estava no auge, no Posto Telegráfico de Seixo, chega um pombo correio, trazendo a seguinte mensagem:
    -Na Turquia, um homem desvenda a fórmula do alquimista Paracelso, e já produz ouro artificial em escala industrial. Em consequência, o preço do metal desaba no mercado internacional.
    Ao correr a notícia, alguns mineiros, frustrados e desesperançados se suicidaram; a maioria enlouqueceu. Como última tentativa de contornar a situação, O Alheado convenceu os mineiros, que ainda contuavam fiéis a ele, a construírem um imenso templo de madeira em honra a São Midas, talvez, desse modo, o Santo se sentisse agradado e liberasse uma veia de ouro. Assim foi feito. Em seguida, O Alheado ordenou que a edificação fosse pintada de amarelo. Ao tom amarelado da madeira ele deu o nome de Itajurana (ouro falso, em tupi-guarani). E aquele construção foi nomeada de Casa Amarela.
    Ainda alimentados por um fio de esperança, mineiros faziam peregrinações ao santuário, que não respondia com o milagre que todos esperavam obter. O tempo passava e a desesperança era uma só. O número de loucos apenas aumentava. Perante uma realidade sem retorno, O Alheado decidiu:
    -Mandei eregir esta edificação, esperando que ela fosse se tornar uma fonte de milagres e bênçãos. Já que não foi possível, ela vai servir de último abrigo ou hospício àqueles que eu levei à loucura. Nela, eu também terei o meu quarto de confinamento. E, naquela masmorra, O Alheado expirou seus dias!
    *Moral da História: a loucura coletiva é a pior de todas. Quando uma comunidade decide, cegamente, abraçar os ideais de falsos líderes. A esse tipo de adesão insana dá-se o nome de panurgismo.
    Por isso, de 1933 a 1945, Adolf Hitler conseguiu levar milhões de simpatizantes a morrer e a matar.
    O líder religioso da seita Templo do Povo, Jim Jones, em 1978, induziu 913 seguidores fanáticos ao suicídio, na Guiana Francesa.
    Em 1993, em Wacco-Texas, Estados Unidos, o chefe da seita Ramo Davidiano, David Koresh, empurrou outras dezenas de devotos à autodestruição. Dentre outros exemplos.
    PS¹: Procuramos dar nomes aos personagens, que mais se aproximassem dos seus sinônimos na obra, O Alienista. Evarista, Plutarca (bem rica, em grego); Porfírio (Vermelho, em grego); Simão Bacamarte, Bugio Espingarda (sinônimos) e Itaguaí (seixo, pedrinha) etc.
    PS²: Paracelso, alquimista suíço, cujo nome verdadeiro era: Phillipus Aureolus Thephrastus Bombast von Hohenmeim.
    PS³: Eldorado, paraíso imaginário de todas as prosperidades, cravado próximo à Cordilheira dos Andes, América do Sul. Os índios o chamava de Grão-Patiti e sua capital era Manoa (lua esmaecida).

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